Por Eugénio Marques
Contra as verdades divinas que Jesus divulgou na sua missão divina, rapidamente se levantaram as opiniões contraditórias e difamantes daqueles que as não entendiam ou intencionalmente as queriam amordaçar.
A nova doutrina, na pureza das suas mensagens, trazia o ar perfumado que beneficiava os corações dos humildes, dos tristes, dos sofredores e dos desprotegidos, que os grandes senhores e o império da época queriam manter sob o domínio de um poder discricionário e fortemente repressivo, que protegia os seus interesses e privilégios económicos, sociais e políticos.
Ao longo dos tempos, as dificuldades da Boa Nova em se poder implantar aos crentes na sua versão original, têm sido facilitadas pelas interpretações divergentes dos textos pelos próprios cristãos, conduzindo o cristianismo a momentos altos e baixos na sua disseminação pelo mundo, como até têm facilitado a proliferação de novas correntes religiosas com sentidos interpretativos distintos.
Na busca de Deus, que é o amor em plenitude e ao mesmo tempo a sabedoria, a justiça, a bondade e a perfeição absolutas, o Homem, na sua pequenez evolutiva, é ainda movido por pensamentos e ações desequilibrados que tem de saber expurgar do seu íntimo e que, com frequência, o arrastam para comportamentos onde prevalecem o egoísmo, o orgulho e a vaidade.
Nos dias que correm, por exemplo, como primeiras prioridades em determinadas grelhas nos noticiários vespertinos, vemos a sociedade conviver com programas que dão preferência a casos onde se destacam as informações violentas e perturbadoras, que o bom senso e a razão rejeitariam se fossem previamente ponderadas as consequências emocionais que elas produzem. Quer concordemos ou não, são a demonstração do estado moral degradante em que certas faixas das populações preferem estar mergulhadas.
Outros que se dizem civilizados, ligados até a religiões importantes cujas doutrinas orientam os seguidores para a caridade, o bem fazer e o bem pensar, deixam-se seduzir pelos lucros fáceis, a fama e o poder, e acabam por esquecer o que os famintos e desprotegidos imploram para as suas necessidades fundamentais.
O homem tem recebido da providência divina, através de mensageiros eleitos e em épocas próprias, orientações superiores destinadas a todos quantos as querem ouvir e seguir: são disso exemplo, a revelação dos dez mandamentos com Moisés e a revelação nas mensagens da Boa Nova que Jesus nos trouxe.
Como relatam os historiadores, na raiz da maioria das religiões e crenças na atualidade, estão os princípios divinos inscritos naquelas duas revelações, com as informações que cada profeta decidiu destacar em pontos doutrinários que entendeu importantes para o povo.
Além disso, ao longo dos tempos e um pouco por todo o lado, a indomável vontade dos homens, ainda numa fase embrionária do seu crescimento espiritual, tem vindo a criar outras derivações religiosas por seguidores que consideravam incompletos ou indefinidos determinados aspetos doutrinários e que, segundo eles, deveriam ser também esclarecidos ou corrigidos.
Os postulados espíritas foram anunciados por Jesus (Jo 14:15-17, 26) quando se refere ao Consolador, o Espírito de Verdade. É uma obra, constituída por cinco livros, que o professor Rivail levou a cabo depois de observações, estudos e comprovações meticulosos, que somente um emérito investigador, respeitado como ele no meio científico do século XIX, tinha condições de realizar e finalizar.
Como acontece com todas as primeiras revelações científicas, as conclusões espirituais obtidas por Allan Kardec não deixaram de ser contestadas particularmente por aqueles que, fixados às suas teorias materialistas, preferem negar tudo o que surja novo contrário às suas ideias e teorias filosóficas. São os que negam por negar, sem nunca se predisporem sequer a ler a novidade que, numa análise cuidada, lhes permitiria ter uma opinião sobre eventuais as suas próprias dúvidas.
Não é por acaso que existe a seguinte passagem nos textos dos evangelistas Mateus e Marcos que diz: “O Cristo está aqui, ou está ali, não acrediteis; porque falsos Cristos e falsos profetas se levantarão, que farão grandes prodígios e coisas de espantar, ao ponto de seduzirem, se fosse possível, os próprios escolhidos.” (Mt 24:4-5, 11-13, 23; Mc 13:5-6, 21-22).
Esta passagem tem um propósito de alerta abrangente, quando aponta para a tentativa daquelas vozes dissonantes dentro do próprio Espiritismo que, como sabemos, veio relembrar o cristianismo primitivo, adulterado ao longo dos tempos.
Contestam partes da codificação, introduzindo nos seus discursos opiniões próprias, que dizem em consonância com o avanço científico dos tempos.
O homem cristão, como o espírita em particular, ao estarem integrados no oceano complexo dos intercâmbios vivenciais, exteriorizam primeiro por hábitos adquiridos, as suas predisposições íntimas, em vez de as procurarem analisar e dominar, como ensinam os princípios morais que todos estamos aprendendo.
O orgulho, o egoísmo e a vaidade são, pois, essas chagas doentias que continuam a proliferar no íntimo das criaturas de Deus, aflorando nos comportamentos de quem nada faz para vigiar e controlar os seus pensamentos, sentimentos e ações.
Sendo inclinações negativas semeadas e enquistadas em experiências passadas, são agora produzidas através de ondas magnéticas nocivas e silenciosas, que perturbam os ambientes e mesmo aqueles que neles estão inseridos, muitas vezes aproveitadas pelos que, no mundo invisível, querem gerar as dúvidas e divisões nas hostes terrenas.
É então importante que possamos analisar seriamente certas notícias que nos aturdem e confundem, que estão surgindo em certos círculos do meio espírita afirmando, que a obra do codificador, ou parte dela, está ultrapassada para os nossos tempos.
São opiniões de quem se considera militante no ideal espírita, e parece querer apresentar-se, agora, com capacidades acima daqueles homens e de Espíritos que nos têm servido de instrutores intocáveis, pela credibilidade dos conhecimentos que sempre divulgaram.
Esses médiuns credíveis e excecionais, têm ajudado o movimento espírita no entendimento de muitos pontos relacionados com a doutrina espírita e o evangelho: referimo-nos especialmente a Chico Xavier e a Divaldo Franco, que nos têm falado da grandiosidade e atualidade da obra de Allan Kardec, relativamente à qual, nunca afirmaram estar desatualizada ou ultrapassada.
E se quisermos outras referências mais concretas e elucidativas, também os seus próprios guias espirituais Emmanuel e Joanna de Ângelis, Espíritos que imaginamos num patamar espiritual bem acima de qualquer humano dos últimos dois séculos, têm-nos trazido inúmeras instruções orientadoras, baseadas e condizentes com os livros codificados e, ao que sabemos, não nos dizem em momento algum, nada que não seja a necessidade de aprendermos, seguindo o que toda a codificação recomenda e ensina.
Seria estranho que o Espiritismo, como terceira revelação divina, tivesse necessidade de melhores ajustes doutrinários às instruções codificadas, ditas agora por alguém que se terá deixado seduzir por certas ideias inspiradas ou não e que apenas vêm gerar dúvidas desnecessárias e possíveis desuniões no seio do movimento espírita.
Desconfiar dos falsos profetas da atualidade, é uma recomendação útil em todos os tempos, particularmente no atual ciclo em que se opera a transição que decorre da transformação da humanidade, onde uma multidão de ambiciosos e intrigantes se pretendem arvorar em reformadores e messias. [1]
É contra esses impostores que se deve estar em guarda e é dever de todo o homem honesto desmascará-los, porque o verdadeiro missionário de Deus deve justificar a sua missão pela sua superioridade, pelas suas virtudes, pela grandeza, pelo resultado e pela influência moralizadora das suas obras. [1]
Numa palavra: os verdadeiros profetas revelam-se pelos seus atos, adivinham-se; ao passo que os falsos profetas se colocam, eles próprios, como enviados de Deus. [1]
Por outro lado, sempre que uma verdade deva ser divulgada à humanidade, é, por assim dizer, comunicada instantaneamente em todos os grupos sérios que dispõem de médiuns sérios e não a este ou aquele, com exclusão dos outros. [2]
Repelir todos esses Espíritos que se apresentam como conselheiros exclusivos, pregando a divisão e o isolamento é o nosso dever. São quase e sempre Espíritos vaidosos e medíocres, que procuram impor-se a homens fracos e crédulos, prodigalizando-lhes exagerados louvores, a fim de os fascinar e de os dominar.
Mas, os falsos profetas não se encontram unicamente entre os homens; existem e em muito maior número entre os Espíritos orgulhosos que, aparentando amor e caridade, semeiam a desunião e retardam a obra de emancipação da humanidade, lançando através dos médiuns que os aceitam os seus sistemas absurdos, para melhor fascinarem aqueles a quem desejam iludir com nomes que os homens pronunciam com respeito. [2]
São estes Espíritos que espalham o fermento do antagonismo entre os grupos na Terra, que os impelem a isolarem-se uns dos outros e a olharem-se com desconfiança. É com estes que todos devemos estar alerta.
Referências:
[1] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, 1.ª edição das Edições Hellil, 2014, Capítulo XXI, item 9.
[2] Idem, ibidem, Cap. XXI, item 10.
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